O café lotado,
gente em profusão.
muito alarido,
corpos muito próximos,
quase que encolhidos,
a se agasalharem.
Eu, só, tragando um gole
quente de conhaque, sou presenteada,
através da vidraça,
com uma cena nunca antes percebida.
(O ser humano é mestre em viver sem perceber).
Nova York, no inverno,
é mesmo inesquecível.
Galhos de árvores, pesados de neve,
parecem flocos de algodão
espalhados
sobre um enorme tapete branco.
Frio intenso, viv’alma na rua,
e, como painel de fundo,
um silêncio sepulcral e absoluto,
naquela paisagem vestida de frios cristais.
Revivo histórias, relembro amores,
tenho saudades, choro minhas perdas,
mas agradeço ao Pai a chance de
estar ali, poder olhar e ver
e inda por cima extasiar-me com
mais uma de suas deslumbrantes maravilhas.
Ana Lúcia Timotheo
1
É lá que tramam os anjos!
Entre uma palavra e outra
No silêncio da intenção.
Ali, na dobra,
Onde uma gota d’água pousa
Sobre a textura da flor.
Onde soluça a criança
Na respiração do universo.
Lá tramam os anjos
No cantar e no dançar,
Em um suspiro, em um olhar, no gesto.
2
O que escrever agora,
Quando nada há a escrever?
Escrever a morte?
Mas se não se lê a morte,
O que fazer?
Talvez um anjo se debruce
Sobre o meu ombro
E saiba, em silêncio,
Tudo o que (não) dizer.
3
Pense na torre de Pisa,
Ereta
Em sua tortividade.
Mas nós é que somos tortos,
Em cada cidade.
O anjo de asa quebrada
Trás o sopro da perfeição.
Acalantos, depois preces,
Mantras, OM.
Pense na torre de Pisa,
Pense no som.
4
Algo se tece,
Os anjos tecem
Os bosques.
A folha descansa,
Ninguém fala,
O nevoeiro avança,
A vida pára.
5
O medo passa como um solfejo,
Um apelo,
Algo sutil
Que, se olhado,
Não tem nenhum medo.
Ah, que sob a neblina
-Na floresta mesma-
Úmida, in-penetrante –
Teu anjo te espera.
Seja folha, faça parte,
Seja seiva, portanto;
Seja terra.
6
É na fímbria,
Onde flui a impossibilidade
Velando toda possibilidade,
Que se pode vê-lo,
Porque, somente, sentido,
Pode-se tê-lo.
Um abraço envolvente
Que nos toma a alma;
Um mergulho intenso,
Além das palavras,
Em um lapso.
Entre o medo e a calma,
Na fímbria e na alma.
7
A minha vida é esta,
Outra não tenho para viver.
Sou único,
Como você.
Sou único em minha textura,
Nada me faz outro.
Como posso um outro viver?
Lin de Varga
abril 26th,2009
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Quando fui operado –
Nas costas me atingiram –,
No hospital ainda,
Arrisquei olhar a rua.
Os carros passavam lá embaixo,
Rápidos como a vida embora.
Um pedreiro me viu e disse:
“Não se mate, não jogue a vida fora!”
Me senti um menino fazendo arte
E chamado à atenção, outrora,
Que só queria, num instante,
Desaparecer, como o quero, agora.
O que posso ler da vida?
Nada, nenhum autor;
Só minha mão.
Cigano em mim,
Tudo sei neste “M” inicial?
Sei, somente, e justamente,
Que nada sei.
abril 25th,2009
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Nada vai me mentir agora.
Fui além de todas as mentiras.
Nada, nenhum olhar ou retórica,
Nenhum ressentimento que se fez verdade,
Pode me olhar.
Nada vai me mentir agora,
Quando sou livre de acreditar.
Já não há início, já não há hora:
Somente como, durmo e acordo para urinar.