SEM “EU” PARA INTOXICAR
A vida é uma arte e só tem alguma significação, quando nenhuma lógica se apresenta.
Livre de todo condicionamento, o que é você? Sua suposta delimitação corporal se expande e se dissolve no ar; sua mente, falsamente composta, dissolve-se no ar. Você é o próprio Universo em sua amplitude?É a Eternidade?
Quero olhar a pedra como se eu fosse a pedra, como se ela me olhasse e não eu a ela.
Sempre me impressionam os indivíduos não espiritualizados. Não falo daqueles que têm uma religião, um dogma ao qual obedecer. Estes, necessitam do externo para se completarem e, portanto, são, em última instância, dependentes de algo ao nível do homem. Os que precisam que lhes digam como agirem, são carentes, fundamentalmente ( esta última assertiva , até por uma rasa construção intelectual, há de ser aceita por todos).
Não espiritualizados aos quais me refiro aqui, são aqueles que vivem de suas consciências individuais e não se dão conta da imensidão do Universo, de sua absoluta perfeição; e que eles são, tão somente, um lampejo nessa Infindável Consciência que nos fez. Vivem da reação, dos mecanismos da mente postos pelo outro. Estes, surpreendem-me; os outros referidos, não podem surpreender. Fazem parte do conhecido.
A propósito, gosto de pensar no naco de visão que temos das coisas, particularmente, no que se refere ao Infinito: Antes, as nuvens, da perspectiva da Terra; depois, o Sol ou a Lua, as estrelas, um Cometa, quem sabe, e além… Um naco que, no entanto, permite a visão total.
Uma inspiração sem pensamentos, é pura paz. Por que as pessoas não conseguem escorregar para o silêncio que são?Escrevi isso em outra parte, não sei em que lugar, repito agora.
Mas vejam isso: “É impressionante ver os focos de violência, agora, no Mundo. A paz das pessoas não pode ser aquela da flor calmamente oferecendo-se ao Sol?” Escrevi tais palavras no Twitter, em 6-2-12. Não parece que isso acontece neste momento?
Na crença absoluta, na crença inteira, de que veio do nada e ao nada retornará, é que você se dá conta de que É um Milagre. Por um instante (Tempo de vida), é testemunha do Infinito Milagre do Universo e faz parte dele. Como se lhe fosse dada a suprema felicidade de se dar conta disso! No entanto, olha e não vê. Mergulha em dogmas, sentimentos, dores e que tais, e nada vê, nada percebe.
Abrindo, aleatoriamente, o livro”Introdução ao Zen Budismo”, de DT Suziki, caio na pg.63, na qual, a propósito de críticas tolas em relação ao Zen, quando o chamaram”Assassino da mente”, ele, Suzuki, diz:”Não há assassino mental no Zen(…) O Zen não tem nenhuma mente para assassinar (…) Portanto, no Zen não há um eu pelo qual possamos ficar intoxicados(…)
Basta este ler, simples,instantâneo,rápido em uma página recém-aberta, para que você tenha em si a dimensão extraordinária do Zen: Vem a você uma alegria incomensurável, um saber-se silêncio(porque neste insight momentâneo não há possibilidade de qualquer pensamento),ao qual nada se pode equiparar.É como beber água fresca e pura e saciar a sede. O que é essa alegria? O reconhecimento de que inexiste EU, de que “não há um eu pelo qual possamos ficar intoxicados”(1).
Penso: quantas pessoas se sabem sem um “eu pelo qual possamos ficar intoxicados”?Tantas quanto aquelas que lerão este texto?
LIN DE VARGA
(1) SUZUKI, D.T., “Introdução ao Zen- Budismo, prefácio de C.G. Jung, Editora Pensamento,SP,1993, pg.63
HAICAI 575 = 17 =8 (O Infinito)
Assistia a uma entrevista de Adriana Calcanhotto, na qual ela fala de Fernando Pessoa e que ele produzira, de um fluxo,toda a poesia de um de seus heterônimos, em pé e escrevendo sobre uma cômoda.Já me o dissera o professor Alterives, anos atrás.De um fluxo(ela fala também de Haicais), escrevi esses 1 0 que se seguem. Tentei 5/7/5, mas acho que não obedeci a tônica como sílaba a ser considerada na última palavra. Não sei. Vocês dirão. Todos têm a ver, todavia, com o que “SABE O NÃO MANIFESTO”.
HAICAIS 575=17=8(Infinito)
Estranha vida (Haicai 1)
Você opina longe
Cala agora
A abelha só (Haicai 2)
Faz pulsar da flor a paz
A alma livre
O que é a paz (Haicai 3)
Só o agora sabe
Na consciência
Crio na mente (Haicai 4)
Antecipo o além
Acontece já
Mofo nos lábios (Haicai 5)
Pó sem lugar de pouso
Júbilo de paz
Beija-flor toca (Haicai 6)
A flor semi-aberta
Vida que urge
Um só instante (Haicai 7)
Pura Eternidade
Lampejo de Deus
Olhar no olho (Haicai 8 )
É olhar-se a si mesmo
Além do corpo
A água se põe (Haicai 9)
No caminho possível
Vida que segue
Óculos sujos (Haicai 10)
Lentes limpas com primor
Ficam as lentes
LIN DE VARGA
MATÉRIA NEGRA
Talvez seja preciso a alma sentir uma dor imensa, para não sentir dor nenhuma e SER simplesmente na pura consciência. Às vezes.
Em um velho cartório de registros , minha data de nascimento pegou fogo. Tenho 90 anos e não tenho nem um. Sou na Eternidade.
E se, de repente, não houvesse cinema? De que ficção viveria o ser humano? Recorreria ele à sua própria ficção?
O Universo é real, muito mais que nosso corpo e mente; e a vida do ser humano, uma soberba ficção.
Waly Salomão, visto naTV. Foi pena não ter prestado atenção a alguém como ele, poeta que vivia a ficção da vida. Vivia como se interpretasse sempre. Era um ator social( ou, por outra, era um ator na sociedade), como se diz nestes dias de máscaras.
Não me basto no Mundo. Sinto saudade de uma saudade que não existe. Sinto saudade de ter vivido em um planeta no qual nunca estive.
Nenhuma palavra vale o escutar o silêncio do Infinito.
Essa eu ouvi em um bar: “Quando a morte vier, não adianta disfarçar com nenhuma fantasia”. Quantas páginas Proust, só para dar um exemplo, escreveu, em busca do “Tempo Perdido”?A frase ouvida não resume de forma fascinante? Ao virar-me, quem a disse, desapareceu na rua. Nunca saberei quem era. E nem importa, de fato.
São mãos que sobem, as árvores? O que clamam, que súplica é esta?Parecem dizer: “Oh, Deus, por que me prendestes aqui?” E os homens, insensatos, criam religiões e criaram fronteiras, e se matam, porque são muitos e nenhuma sensatez resta? “Por que me prendestes aqui, Deus, junto a esses insensatos?”, perguntam as árvores.
A propósito de anotar uma idéia, para depois desenvolvê-la, anotei, na rua: “ O outro não houve”, querendo dizer que as pessoas não se ouvem. Anotei assim, com o erro, “houve”, com “h”. Improvável tê-lo feito, mesmo com uma cultura sofrível como a minha. No entanto, inconscientemente, era isso: O outro não houve, porque, se ele não ouve, não existe.
Os Anjos impregnam-se nas florestas, mas não quebram as asas; pelo contrário, cobrem-nos a todos. Sabem o porquê? Percebam, de repente, um feixe de luz atravessa o verde, os galhos, toca o chão orvalhado e vem ao seu Ser.
A vontade, o complexo de minha personalidade…Já nada mais existe, depois que absorvi, por exemplo,a intuição dada por Nisargadata Maharashi quando diz coisas como “A vida que se desenrola além da intenção humana”.
Pode ser uma interessante descoberta sobre você procurar antigas anotações em antigos livros. O pergaminho da vida pode dissolver-se, não pela ação do tempo, mas pela plena consciência do agora.
Tenho lido sobre a Matéria Negra. Tomam-na como uma descoberta, uma suposição recente. Seria uma substância, que não se comprova e é invisível, é a maior massa do Universo, e seria como um “Esqueleto” que sustenta as estrelas e galáxias. Parece que são estimadas 100bilhões de galáxias. E o Universo se expande, mais e mais e se acelera. A matéria escura impulsiona essa expansão.
Insisto que isso é “uma descoberta recente”. Você já leu Lao Tsè?
“Há algo obscuro, completo
Antes que o céu e terra surgissem;
Tranqüilo, calmo,
Solitário e imutável,
Movendo-se sem risco.
Poderia ser a mãe de tudo,
Não lhe sei o nome:
Chamo-o de Tao.”(1)
Não parece que se fala da mesma coisa?
LIN DE VARGA
(1) Citado por Wayne Dyer, “A Verdadeira Magia”, Editora Nova Era, 2ª Edição, pg.148
QUEM SOU?
“Em todo o Universo, nada existe de mais parecido com Deus
que o silêncio (…) Enquanto eu sou isso ou aquilo, não sou todas as coisas simultaneamente(.. . )Peço a Deus que me livre de Deus (…)”
Essas frases são de Mestre Eckhart, que viveu entre 1260 e 1328, com títulos na Universidade de Paris. Causa estranheza supor-se que houvesse sobrevivido à Inquisição com esse pensamento, digamos, abençoado; e impressionantemente corajoso, sendo ele homem religioso e vivendo naquela época de fogueiras.
Luiz Felipe Pondé, Filósofo,diz em coluna no jornal Folha de São Paulo,em 7-6-2014:”Eckhart pagou caro por sua ousadia: Teria sido queimado se não tivesse morrido.” Salvou-o, portanto, a morte; ou, por outra, o que chamo retorno a casa.
O medíocre não consegue esconder-se, mesmo atrás do mais erudito discurso; diria mais, mesmo atrás do mais brilhante discurso. No entanto, o medíocre e o erudito são uma só coisa e tudo é uma armadilha que se fecha sobre a presa no âmbito da mente. Antes que se apressem os críticos ( apesar de ser difícil pensá-los lendo o que escrevo),medíocre aqui tem a ver somente em não ser o máximo ou o mínimo.
Não saber-se com sorte: Saber-se a sorte. De onde ela vem?Do cosmos, das árvores, de uma imagem em pedestal?Ora, tudo isso é você. Você é a própria sorte. Você pertence a Vênus e Vênus lhe pertence.
Atente para a profunda fé de não ser a mente. Acho que tem a ver com a frase de Mestre Eckhart, “Peço a Deus que me livre de Deus.”
O que se chama de mente, não existe, de fato, apesar de usarmos a palavra por necessidade de expressão. Essa é uma questão única e fascinante. “Veja só, que tolice nós dois brigarmos assim!”, diz a canção. Isso é o que se chama mente , o formato,aquilo que foi produzido pela memória. Em um momento qualquer, lá atrás, o homem, às voltas com um pensamento, necessitou conduzi-lo a uma formatação, tornava-se “Eu”. Nenhum pensamento se mantêm; como existir algo chamado mente?
Antes que eu nascesse, tudo HÁ. Viajo no meu corpo? Fugidia viagem. Um lampejo. O Infinito se aprofunda em si mesmo e isso é Eternidade.
Olha… De repente, não sou a mente, nem meu corpo. Sou o aqui e agora, a Eternidade.
LIN DE VARGA
A QUIETUDE QUE AGE
Todos respiram o mesmo ar, aqui e na China; todos estão dentro do mesmo espaço, aqui e na China. O ar parece infinito, o espaço nem tanto. Perceba o espaço em volta de todas as coisas: A xícara, o controle da TV, o elefante.
Saber-se testemunha. É só.
Nenhuma religião é necessária para me dizer que Deus existe; se eu respiro, isso está provado.
Assistia à palestra de um filósofo no “Café Filosófico”, TV Cultura.Ele dizia que durante o Império Romano, quando um navio ia naufragar, primeiro salvavam-se os homens: só depois as mulheres e, finalmente, as crianças.
Disse também, que segundo uma pesquisa do Ibope, 97% dos brasileiros, acham que vão para o céu, quando morrerem.Essas coisas chamam a minha atenção, quando vejo um milhão de pessoas assistindo à canonização de dois Papas, no Vaticano, e não posso deixar de pensar que não há segredo mais profundo do que aquele escondido no tempo de uma respiração.”Que céu pode satisfazer teu sonho de céu?”diria Manoel Bandeira.
Outro dia estive em uma árvore, no tronco mesmo e fiquei por ali, sendo seiva, raiz na perfeição da quietude que age, estria na madeira. Isso, dentro do bosque, no meu Universo.
E quando o sol vai se pondo no berço de uma falange de anjos e, ao mesmo tempo, percebe-se um risco abaulado, a lua emergente – traço de Deus no espaço – sol e lua são como polaridades de energia. Então, você sabe que FAZ PARTE, QUE É, e nada pode importar a cinco minutos de um relacionamento.
LIN DE VARGA