Esquecimento

A mulher que me olha,
Procura, insistente, na memória,
Onde viu meu rosto antes,
Na esteira de sua história.

A mulher perdeu sua pele,
Fala só com sinceridade.
O tempo lhe comeu tudo,
O nascimento e a idade.

O vento

Como grita o vento…
E como é triste…
Mais se faz ouvir,
No corpo incerto das Janelas.

Ou no estremecimento das portas.

Ouço o vento e percebo
A impossibilidade da vida;
Algo que faz pouco sentido,
Como uma poesia inesperada.

O vento conhece
O que não conhecemos.
Toda a verdade que paira
E nunca, nunca nos desce.

Quieto

Fica Quieto!
Há muitas palavras.
Ninguém quer dizer nada,
Só falar.

Ninguém se admite luz,
Deus no corpo
Não reduz,
Induz.

Fica Quieto!
Ouve o barulho das culturas.
Não é nada.
Uma gota cai,
No vão.
Uma gota parada
É mais, muito mais,
Do que qualquer comoção.

Poesia?

É preciso ser atropelado,
Pela poesia.
Não são palavras a poesia,
É o rumor da floresta,
O gesto inesperado,
O silêncio da boca aberta,
O estupor do louco,
O ábaco da criança.
Não são palavras,
É a intensa dança.

É o coração cortado,
No peito do mendigo.
Um sopro de hálito,
Um piano antigo,
É o chão.

Poesia é,
Precisa atropelar.
Nunca avisa,
Precisa saltar
Dentro da morte
No começo da vida.

Poesia?
Silêncio.
Não se pode falar.

Relva

Mas se eu souber
Ao pisar a relva macia
O que ela me oferece
Minha integridade,
Serenidade e forma,
Que dela faço parte
E ambos no universo somos,
Então, nela, em verdade não piso:
Flutuo, sou.
E ela, agradecida, cresce.