Que outro é este,
Que te anuvia?
Ao despertar
Já não me vela o teu olhar.
Já não te encontra
Meu corpo que se espreguiça.
Tua nuca é a de uma estranha
Quando levantas da cama,
Desapercebida.
Que outro é este,
Que aparência tem
Na aparência que te demonstra?
Impossível que te ame
Como te amo eu,
Mas, é provável, sofre muito
Por fingir o amor que é meu.
Súbito,
O velho atravessou a rua.
Sem hesitações ou temores,
Mas tardo.
Ia pelejando no andar,
Como se a vida fosse de ficar.
Os carros disparando, colados,
Buzinas no ar.
Xingamentos no rosto do velho,
Mas calidez em seu olhar.
E, sem hesitações ou temores,
Num lapso,
Alcançou a calçada adiante,
Onde, de repente,
Pegou-lhe um colapso.
Escuta o silêncio além do cantar dos pássaros:
É o som do infinito.
Nada se perturba na percepção,
Nada é preciso.
Escuta o silêncio além do cantar dos pássaros:
E dá tua alma nisso.
Nada se perturba na percepção,
Nada é preciso.
Escuta com a atenção do íntimo leve.
E se tua vista te levar a outras impressões,
Fecha os olhos para melhor escutares.
Escuta com todos os poros.
Deixa esta percepção te entrar.
E se venceres o tempo e fores à eternidade,
Não te surpreendas se a vida não voltar.
Lá na distância embaixo
De um terreno tolo e só,
Vejo a mulher e os gatos,
Como em todas as manhãs,
Sempre.
A solidão dos gatos,
Ensimesmados, escorregadios,
Sorrateiros.
Deslizando entre os matos,
Fervendo uma mijada ali,
Outra lá,
Os gatos.
E, depois, vêm, talvez matreiros,
Roçar os seios,
Os mornos seios da mulher,
Que os olhos sapacos não mentem.
Assim, no elevador, quando subo ou desço,
Os olhos brilhantes dos gatos,
Olham-me superiores os olhos
Do colo quente da mulher,
Como se soubessem de meu desejo,
Como se eu fosse um qualquer
Como é bonito o Irerê
Que desliza no céu
Desmaiado em azul do anoitecer.
E vai abrindo em ângulos,
Losangos, triângulos, e vai,
Suavemente, numa dança de enternecer.
Ei, Irerê, me leva no vôo
Dessa liberdade plena.
Eu quero também ser tudo:
Um ponto nessa imensidão, apenas.