Ir

Vou pr’a São João da Barra.
Não sei o porquê, mas vou pr’a lá.
É que não sou Bandeira,
Pr’a ter uma Pasárgada,
Mas não importa:
Muito melhor São João,
Que posso alcançar.
Pasárgada está muito longe,
São João é aqui perto
Do meu peito incerto
De tanto sonhar.

Vou pr’a São João,
Vou até de avião;
Se não tiver aeroporto,
Morro ao chegar.
O vento que sopra lá,
Não sopra por cá.
Vou pr’a São João,
Pr’a não mais voltar.

Lombadas

Eu ia olhando
O homem solitário –
Solitário em solitude –
No cheiro da livraria.

Parece que nenhuma gula,
Pode se surpreender neste homem que vela
Todas as lombadas nas prateleiras.

Mas a paciência não anula
A fome escondida e o vazio nela.
Há de gulas tantas formas e maneiras.

Gosto tanto de estar só,
Que chega a não ser estar comigo.
Somente comigo
Nos olhos etíopes
Das crianças.

Somente comigo
No rosto adolescente
Que se arma e pouco vê.

Gosto tanto de estar só,
Que tenho receio de não estar comigo
Mas no outro,
Assim como você.

O segredo

O que foi que disse o homem?
Não ouvi direito.
Um segredo, de repente, contado,
Olhando em volta, com medo.

Que medo tem este homem,
Tão zeloso de seu segredo?

Segura – as mãos estremecidas -,
O braço do outro, para contá-lo.
Que segredo é esse tão precioso?
O que transmite, por que passá-lo?

Quem ouve o segredo, calado,
Não parece se perturbar;
É que o segredo só pode mesmo
Ao seu dono interessar.

Um outro lugar

Nada me pode convencer
Que eu não seja de outro lugar.
Quem sabe exista um mantra
No qual eu possa estar?

Qualquer coisa nas asas dos pássaros,
No mar.
O riso falso que se demora…
Deve haver um outro lugar.

Um único olhar de criança sentida:
Outro lugar.

O pedido, sem palavras, do embriagado,
A mulher que apanha ao lado,
O mendigo devorando restos,
Um tolo cheio de gestos,
A manteiga que escorre no pão,
Ataque do coração.
Deve haver outro lugar.

Uma árvore sem sombra,
Um sem sentido original,
Igreja vazia e fresca,
Igreja cheia e vazia,
O desespero do coroinha
Que nunca terá sua missa.
Deve haver outro lugar.

A aflição dos pombos sobre o parapeito,
Um aperto de mão sem jeito,
Um beijo sem salivação
E tantos cuspes no chão.
A balança aumentando o peso,
A conversa do rico e do teso,
Uma greve pela liberdade de expressão
Impedindo a de locomoção.

Os olhos que não se olham,
Que se defrontam e se confrontam,
Aqui, neste lugar.
Os corpos enrijecidos,
Um menino magoado,
Criança ferida,
A mãe que oprime, deprime,?

Aquele lugar outro, além de mim,
Perto de mim, é o meu lugar.
Quero estar nele e, quem sabe, não precise…
Nunca, nunca mais voltar.