V o y e u r (ficcão)

Curta Metragem
Roteiro de
Lin de Varga
Voyeur

Sinopse de Curta-Metragem
Trajano é um voyeur contumaz. De seu apartamento, usando binóculos, olha os moradores de um condomínio em frente. Já há algum tempo, vem observando, particularmente, uma jovem que mora no 10º andar do referido condomínio. Percebe-a em vários momentos do dia-a-dia, tomando banho, despida na sala, etc.
Paralelamente a isto, Trajano começa a receber telefonemas de uma mulher que se diz também moradora do condomínio por ele observado. Esta mulher vai, em um crescendo de ligações, irritando-o. Trajano, no entanto, prossegue no observar a jovem, percebendo que ela, mais e mais, parece alimentar uma compulsão a debruçar-se sobre o parapeito da janela do seu apartamento.
Por fim, certo dia, Trajano supõe que ela vai jogar-se pela janela e praticar suicídio. Neste momento, está no auge da irritação com a mulher que lhe telefona. De fato, está falando com tal mulher, quando vê a jovem, segundo seu ponto de vista, pronta para lançar-se janela abaixo.
Ele corre para o condomínio em frente, pensando em salvar a moça.
A mulher, que também observa Trajano com um binóculo, vendo-o correr para o condomínio, pensa que ele enlouqueceu e vai fazer-lhe algum mal em seu apartamento, no mesmo 10º andar. A mulher pega uma arma e espera no corredor, para surpreendê-lo. Mata-o quando ele alcança o andar.
A jovem, finalmente, aparece sozinha em seu apartamento, debruçada sobre o parapeito da janela para cuidar de um ninho de passarinhos, o que já vinha fazendo há algum tempo, fato que deu a Trajano a impressão de que ela fosse suicidar-se.

V O Y E U R
Perfil dos Personagens

Trajano – 35 anos, 1,70. O Voyeur.
A jovem – 20 anos, 1,65. A mulher que é observada por Trajano.
A Voz/Mulher – 40 ano, 1,60. A pessoa que observa Trajano.

V O Y E U R
Roteiro de Curta-Metragem
de Lin de Varga

Cena 1 – Sala do apartamento de Trajano – Int/Noite.

Não há letreiros iniciais. Trajano é visto olhando no escuro através da janela ampla de seu apartamento um condomínio em frente. Aí, surge, somente, o título do filme: “Voyeur”. Dentre os vários apartamentos com luzes acesas, fixa um deles, no décimo andar. Este apartamento recebe o acolhimento de uma imensa arvore, que cresce de um morro, ao lado do prédio. Trajano pega seu binóculo sobre o sofá, cujas alças mete pelo pescoço. Foca-o na janela acesa do apartamento.

Cena 2 – Visão do apartamento no outro condomínio através do binóculo, ponto de vista de Trajano – Ext/Int/Noite.

Das três janelas do apartamento, só a da sala está com a luz acesa.

Cena 3 – Sala do apartamento (Ao indicar-se a sala do apartamento, daqui em diante, entender-se-á apartamento de Trajano) – Int/Noite.

Trajano não vê ninguém no apartamento em frente. Ele desce o binóculo até o peito. Senta-se em um sofá, dando um muxoxo. O telefone toca ao lado, sobre uma mesinha. Trajano pega o fone.

Trajano
Alô

A voz ao telefone é feminina. Será ouvida em off.

A voz
Trajano?

Trajano
Eu?

A voz
Como vai?

Trajano
Quem é?

A voz
Alguém que te observa.

Trajano dá um sopro, sinalizando desagrado.

A voz
Sou sua vizinha.

Há uma pausa.

Trajano
É mesmo? Vizinha?

A voz
É, vizinha.

Trajano
Aqui, do prédio?

A voz
Não, moro no condomínio em frente ao seu. Vejo você sair quase todo dia.

Há um estalo e a linha, de repente, cai.

Trajano
Alô! Alô!

Sua voz fica obliterada pelo som intermitente que sai do aparelho.

Trajano
Um trote (fala, quase num murmúrio)

Cena 4 – Sala do apartamento – Int./Noite.

Trajano levanta-se do sofá e, indo até à janela, olha o condomínio em frente. Põe o binóculo sobre os olhos e foca o apartamento no décimo andar.

Cena 5 – Visão do apartamento no outro condomínio, através do binóculo, ponto de vista de Trajano – Ext/Int/Noite.

Vê-se a sala com a luz acesa. Há vários móveis em uma sala bem decorada. Um computador no canto, à direita. Uma jovem começa à atravessar a sala. Usa uma calcinha branca, tem os seios grandes e estão nus. Os cabelos são castanhos claros e estão soltos sobre os ombros.

Cena 6 – Sala apartamento – Int/Noite.
Trajano tem uma expressão de êxtase ao apreciar a jovem (morde os lábios).

Cena 7 – Visão do Apartamento, ponto de vista de Trajano (ao indicar-se visão do apartamento, daqui em diante, entender-se-á o apartamento da jovem observada por Trajano) – Ext/Int/Noite.

A jovem, passando pela sala, chega à porta de um cômodo adiante, à esquerda. Acende o interruptor. Um banheiro fica inteiramente iluminado. Ela se despe da calcinha. Em dado momento, volta à janela. Está de frente. Seu sexo é como uma mancha uniforme e negra. A jovem olha para fora e segue para o banheiro.

Cena 8 – Sala do apartamento – Int/Noite.
Trajano mantém-se estático, binóculo sobre os olhos, fixando o apartamento no condomínio em frente.

Cena (inserção) 8-A .
É focalizado um relógio na parede do apartamento de Trajano. O relógio denotará a passagem de um certo tempo.

Cena 8 – Sala do apartamento – Int/Noite.
Continuação. Trajano olhando através do binóculo.

Cena 9 – Visão do apartamento, ponto de vista de Trajano – Ext/Int/Noite.
A jovem surge na sala, esfregando com a toalha o cabelo, vigorosamente. Aproxima-se da janela, enquanto envolve o corpo na toalha. Debruça-se sobre o parapeito e fica olhando para fora. Ela se inclina bastante. A árvore, ao lado, chega quase a tocá-la. Finalmente, afasta-se.

Cena 10 – Sala do apartamento – Int/Noite.
Trajano abaixa o binóculo e olha o relógio na parede.

Cena (insercão) 10-A – É focalizado o relógio na parede, demonstrando a passagem de um certo tempo, representativo do quanto a jovem ficou à janela.
Trajano (quase em um murmúrio)
Vinte minutos… ( ou dez, cinco minutos, etc., o que for adequado ao ritmo do filme).

Cena 11 – Quarto de Trajano – Int/Noite
Trajano dorme. Ele se mexe e murmura incompreensivelmente. Sonha (o sonho de Trajano é mostrado em flashes).

Cena 11-A (flash) – Sonho de Trajano.
A jovem aproxima-se da janela, nua, no condomínio em frente.

Cena 11 – Quarto de Trajano – Int/Noite.
Continuação. Trajano dorme.

Cena 11-B – (flash) – Sonho de Trajano.
A jovem inclina-se sobre o parapeito da janela.

Cena 11 – Quarto de Trajano – Int/Noite.
Continuação. Trajano dorme.

Cena 11-C (flash).
A jovem lança-se pela janela.Cena 11 – Quarto de Trajano – Int/Noite.
Continuação. Trajano ergue-se na cama, os olhos esbugalhados. Está suando. Respira convulsivamente.

Cena 12
– Sala do apartamento – Int/Dia.
Trajano está novamente de pé, binóculo nos olhos, olhando o apartamento da jovem.

Cena 13 – Visão do apartamento, ponto de vista de Trajano – Ext/Int/Dia.
A jovem usa um camisão branco. Inclina-se sobre o parapeito da janela, junto à árvore. Os cabelos soltos, devido à sua inclinação, caem sobre os ombros. Apoia-se no parapeito com as duas mãos. Inclina-se intensamente. Volta-se, finalmente, e desaparece além do retângulo da janela.
(Aqui, o tempo não é determinado. O que se destaca é a intensa inclinação da jovem).

Cena 14 – Sala do apartamento – Int/Dia.
Trajano baixa o binóculo. Espele o ar pela boca, como se aliviado. O telefone toca. Trajano atende.

Trajano
Alô?

A voz
Trajano?
A mesma voz da noite anterior (ouve-se a voz em off ).
Trajano
Sim…

A voz
Como vai?

Trajano
Diga quem você é, ou vou desligar.

(Pausa)

Trajano
Alô? Alô?

A voz
Aproxima mais da janela…

Trajano
Quê?!

A voz
Vai até à janela…
Trajano aproxima-se bem da janela, com o telefone no ouvido.
A voz
Estou vendo você bem, agora.

Trajano
É?… Em que apartamento você está?

(pausa)

A voz
Olha com seu binóculo.

(Trajano, intrigado, põe o binóculo sobre os olhos).

Trajano
Você pode me ver?

A voz
Você não é o único que tem binóculo por aqui.

Cena 15 – Visão do condomínio, perspectiva de Trajano – Ext/Int/Dia.
O binóculo passeia pelos vários apartamentos do condomínio em frente. Estanca em uma das janelas no décimo andar. O apartamento ao lado daquele da jovem que Trajano vem observando. Vê nele uma mulher com um binóculo sobre os olhos, próxima à janela.

Cena 16
– Sala do apartamento – Int/Dia.
Continuação

Trajano
É você, então? (Sorrindo).

A voz
Sou eu.

Trajano
Como é seu nome?

Cena 17 – Visão do apartamento da mulher de binóculos – Ext/Int/Dia.
A mulher desce o fone até o aparelho ao seu lado e tira o binóculo de sobre os olhos. Segue para um cômodo contíguo, desaparecendo.

Cena 18 – Sala do apartamento – Int/Dia.
Continuação. Trajano abaixa o binóculo e fica olhando para fora.

Cena 19 – Sala do apartamento – Int/Noite.
Trajano olha pelo binóculo o condomínio em frente.

Cena 20 – Visão do apartamento, ponto de vista de Trajano – Ext/Int/Noite.
A jovem está sentada a uma mesa, na sala, digitando no computador. Usa o camisão branco. Em dado momento, levanta-se e chega à janela. Debruça-se sobre o parapeito e olha para fora. Olha também para a árvore que quase a toca. A jovem coloca as mãos entre os galhos da árvore.

Cena 21 – Sala do apartamento – Int/Noite.
O telefone toca. Sem descer o binóculo, Trajano o atende.
Trajano
Alô! (Rude).

A voz (a mesma mulher que telefona sempre – off).
Oi, Trajano.

Trajano
Você, outra vez!

A voz
Outra vez.

Trajano
Por que que não me deixa em paz, heim?

A voz
Que falta de delicadeza!

Trajano
Vê se me esquece!

A voz
Você está com o binóculo, meu bem?
Trajano dirige o binóculo para o apartamento ao lado, no condomínio, 10 andar, ou seja, aquele da mulher de binóculos.

Cena 22 – Visão do apartamento da mulher de binóculos, ponto de vista de Trajano – Ext/Int/Noite.
A mulher observa Trajano com seu binóculo.

Cena 23
– Sala do apartamento Int/Noite.
Trajano
Dois binóculos não se beijam.

A voz
Não? Talvez sejam feitos um para o outro.

Trajano
Vou desligar.

A voz
É falta de…
Trajano volta a focalizar a janela da jovem que ele vem observando.

Cena 24 – Visão do apartamento, ponto de vista de Trajano – Ext/Int/Noite.
A jovem está na sala do apartamento. Demonstra certa inquietação e se dirige para o banheiro. Pára. Olha para a janela. Vem até ela. Inclina-se sobre o parapeito. Sua inclinação é, a cada ato, mais e mais acentuada.

Cena 25
– Sala do apartamento – Int/Noite.
Trajano olha através do binóculo a jovem. O telefone toca.
Trajano
Alô! (Gritando).

(Pausa)

Trajano
Está me olhando? (Pergunta, mais calmo, enquanto desce o binóculo).

Trajano
Você está me olhando. (Afirma).

(Pausa).

Trajano
Você se sente responsável por mim?

A voz (a mesma voz feminina – off)
O quê?

Trajano
Você se sente responsável por mim?

A voz
Deveria?

Trajano
Você me observa. Eu pertenço à sua percepção.
(Pausa)

Trajano
Estou-lhe aborrecendo?

A voz
Não… (De forma apagada).

Trajano
Surpreendi você, não é? É bom enquanto não há envolvimento.
Trajano, usando novamente o binóculo, desloca sua visão para o apartamento ao lado daquele da jovem, o da mulher de binóculos.

Cena 26 – A visão do apartamento da mulher de binóculos, ponto de vista de Trajano – Ext/Int/Noite.
A mulher de binóculos o observa, com o telefone no ouvido.

Cena 27 – Sala do apartamento – Int/Noite.
Continuação. Trajano volta a focar o apartamento da jovem. Fica estarrecido.

Cena 28 – Visão do apartamento, ponto de vista de Trajano – Ext/Int/Noite.
A jovem está com os braços apoiados sobre o parapeito, inclinada. Levanta a perna e pousa um pé no parapeito da janela, como se nele fosse subir.

Cena 29 – Sala do apartamento – Int/Noite.
Trajano
Meu Deus, não é possível! Porra! Não faz isso comigo!

Cena 30 – A visão do apartamento da mulher de binóculos, ponto de vista de Trajano – Ext/Int/Noite.
A mulher de binóculos, houve as palavras nervosas de Trajano ao telefone (em off). Aqui, as palavras podem ser desdobradas, conforme a necessidade de ser mostrada a tensão que se pretende desenvolver.

Cena 31 – Sala do Apartamento Int/Noite.
Trajano lança para o alto binóculo e telefone. Corre e sai pela porta do seu apartamento.

Cena 32 – Sala do apartamento da mulher de binóculo – Int/Noite.
Vê-se, pela primeira vez, o rosto da mulher, de perto. Está atônita. Ouvira o grito lancinante e o xingamento ao telefone. Larga o binóculo e o telefone.
A mulher (Para si mesma).
Ele enlouqueceu, meu Deus! Que que vai fazer? Saiu porta à fora.
A mulher chega até à janela e olha para baixo.

Cena 33 – Visão do pátio do condomínio, ponto de vista da mulher do binóculos – Ext/Noite.
A mulher vê Trajano atravessando o pátio lá embaixo em desabalada carreira e entrar no condomínio em que ela mora.

Cena 34 – Sala do apartamento da mulher de binóculos – Int/Noite.
A mulher (Para si mesma).
Vem pro meu apartamento! Porra, enlouqueceu; vem me pegar!

Cena 35 – Quarto do apartamento da mulher de binóculos – Int/Noite.
A mulher entra no quarto e pega um revólver em uma mesinha de cabeceira.

Cena 36 – Sala do apartamento da mulher de binóculos – Int/Noite.
A mulher se coloca junto à porta de saída. Encosta a cabeça na porta, tentando ouvir o elevador. Ela treme nervosamente. Os olhos estão saltados.
A mulher
Meu Deus, acho que tenho que sair! Vou sair! Vou ficar lá fora… Tenho que surpreender ele…

Cena 37 – Corredor do 10 andar – Int/Noite.
A mulher sai de seu apartamento, revólver em punho. Espera, apontando para o elevador. A porta deste se abre abruptamente. Surge Trajano. Ele avança sobre a mulher.
Trajano
Por favor, precisamos ajudá-la! Aquela jovem…

A mulher
Não se aproxime, não me faca mal!
A mulher dispara o revólver. Trajano desaba com o tiro que recebe no peito.

Cena 38 – Sala do apartamento da jovem que era observada por Trajano – Int/Dia.
A jovem sai do banheiro e se dirige a janela. Seus cabelos estão molhados. Ela está envolta em uma toalha. Tem uma expressão de felicidade. Inclina-se sobre o parapeito e olha para um ninho de passarinhos na árvore que acolhe o apartamento. Sorri. Inclina-se e toca o ninho, carinhosamente, onde há alguns filhotes.
Jovem (Com uma expressão de contentamento).
Eu vou cuidar de vocês, tá, meus queridinhos!? Agora tenho que ir trabalhar, à noite a gente se vê.
A jovem se afasta desaparecendo no retângulo da janela.

LETREIROS
FIM DO ROTEIRO
Lin de Varga

Tradução em Inglês

Voyeur
(Fiction)

Short Film

Script by
Lin de Varga
Voyeur
Short Film Scenario

Trajano is an obstinate voyeur. From his apartment he looks, through his binoculars, at the householders who live in a building just in front of his. He has been watching a particular young lady who lives in the tenth floor for a long time. He usually watches her having shower ,taking her clothes off in the living room and etc, at different times of the day.
Meanwhile, Trajano receives phone calls from a woman who says she lives in the same building Trajano has been observing. As time goes by, these calls gradually annoy Trajano. However he continues watching the young lady who seems to be compulsive to lean forward her apartment window sill.
One day, indeed, Trajano thinks the young lady is going to jump from the window, trying to get suicide. At the same time he is really angry with the woman who usually calls to bother him. In fact he is talking to her by the phone when he realizes the young lady is ready to jump.
Then he runs fast in the direction of the building where the young lady lives in order to try to avoid her jump. On the other hand, the woman who also observes Trajano watching her building from his binoculars, sees him run into her building and thinks that he has gone mad and that he will do something bad to her in her apartment which, by coincidence, is also in the tenth floor.
Therefore she takes a gun and waites for him in the hall to surprise him. As soon as he reaches the tenth floor, she suddenly kills him.
The young lady finally appears alone in her apartment, leaning forward the window sill to take care of a bird’s nest, something that she has been doing for quite a long time and that made Trajano think that she was going to get suicide.
Voyeur
Character’s Profile
Trajano – 35 years old, 170cm. The voyeur.
The young lady – 20 years old, 165 cm. The woman who is watched by Trajano.
The Voice/Woman – 40 years old, 160 cm. The person who observes Trajano.
Yoyeur

Short Film Script
By Lin de Varga

Scene 1 – Trajano’s Living room – indoor/evening
There are no inicial inscriptions. Trajano is seen, watching in the dark through the wide window of his apartment, a building just in front of his. Then the title of the movie suddenly in shown : “Voyeur”

Among many apartments, which are all with lights on, one in the tenth floor is focused. This apartment is sheltered by a huge tree which comes from a hill next to the building. Trajano picks up his binoculars on the sofa and fits its strap around his shoulder. Then he focuses on the apartment window with the lights on.
Scene 2 – View of the other apartment building through the binoculars, from Trajano’s point of view. The young lady’s apartment – outdoor/indoor/evening

From all the three windows of the apartment, just the living room is with the lights on.

Scene 3 – Trajano’s Living room – indoor/evening
Trajano doesn’t see anyone in the apartment ahead. He slides his binoculars until the chest, sits on the sofa and makes a noise indicating annoyance. The telephone , on the coffee table rings, and Trajano picks it up.
Trajano

Hello

The voice by the phone is female. It will be heard in off.

The voice

Trajano?

4
Trajano

That’s me!

The voice

How are you?

Trajano

Who´s that?

The voice

Someone who has been watching you.

Trajano blows showing displeasure.

The voice

I’m your neighbor.

There is a pause.

Trajano

Really? My neighbor?

The voice

That’s it. Your neighbor.

Trajano

Here, from my apartment building?

The voice

No, I live in the building just in front of yours. I see you going out almost everyday.
5
There is a quick noise and the line suddenly is off.

Trajano

Hello! Hello!
His voice is obliterated by the intermittent sound going out from the telephone.
Trajano
That’s a joke (he speaks almost whispering)

Scene 4 – Trajano’s Living Room – indoor/evening
Trajano stands up from the sofa, walks to the window and looks at the building ahead. He uses his binoculars and focuses on the apartment at the tenth floor.

Scene 5 – The young lady’s apartment through Trajano’s point of view – outdoor/indoor/evening

The lights are on in the living-room. There are many pieces of furniture in a very well-decorated room. There is a computer at the right corner. A young lady crosses the living room. Her sumptuous breasts are naked and she is only wearing white panties. Her light brown hair is untied by her shoulders.

Scene 6 – Trajano’s Living room – indoor/evening
Trajano licks his lips showing excitement while appreciating the young lady.

Scene 7 – The young lady’s apartment through Trajano’s point of view – outdoor/indoor/evening

The young lady heads to another room on the left. She switches on the light. The bathroom is lighted up. She takes off her panties and in a certain time she comes back to the window. At this moment she can be entirely seen and her genitals is like a black uniform spot. The young lady looks outside and walks back to the bathroom.
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Scene 8 – Trajano’s Living room – indoor/evening
Trajano keeps himself still with his binoculars watching the apartment building ahead.

Scene 8 – A
A clock on the wall is focused in Trajano’s apartment. The clock will set the time which goes on.

Scene 8 – Trajano’s Living room – indoor/evening
Trajano is watching through his binoculars.

Scene 9 – The young lady’s apartment through Trajano’s point of view – outdoor/indoor/evening

The young lady shows up in the living room while toweling her hair down vigorously. She walks to the window as she covers her body with a towel. She leans on the window sill and looks outside. She leans deeply. The tree next to the apartment almost touches her. Finally she walks far from it.

Scene 10 – Trajano’s Living room – indoor/evening

Trajano lowers his binoculars and looks at the clock.

Scene 10 – A
The clock on the wall is focused showing the time the young lady stood by the window.

Trajano (almost whispering)

Twenty minutes… (or ten, five minutes, etc, whatever is better to the film rhythm)
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Scene 11 – Trajano’s Bedroom – indoor/evening

Trajano sleeps. He turns and whispers nonsense words. He dreams (Trajano’s dreams are shown in flashes).

Scene 11 A (flash) – Trajano’s Dream
The young lady gets close to the window, naked, in the apartment ahead.

Scene 11 – Trajano’s Bedroom – indoor/evening
Continuing…Trajano sleeps.

Scene 11 B
(Flash) – Trajano’s Dream
The young lady leans herself on the window sill.

Scene 11 – Trajano’s Bedroom – indoor/evening
Continuing… Trajano sleeps.

Scene 11 C (Flash) – Trajano’s Dream
The young lady jumps from the window.

Scene 11 – Trajano’s Bedroom – indoor/evening
Continuing… Trajano gets up from the bed with bulging eyes. He sweats and breathes convulsively.

Scene 12
– Trajano’s Living room – indoor/day
Trajano is standing by the window with his binoculars watching the young lady’s apartment.

Scene 13 – The young lady’s apartment through Trajano’s point of view – outdoor/indoor/day

She wears a white shirt and leans on the window sill next to the tree. Her untied hair falls upon her shoulders. She upholds on the window sill with both hands and leans intensively. She turns back and finally disappears through the rectangular frame of the window.
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(Time here is not determined. The young lady’s intense leaning is what must be focused).

Scene 14 – Trajano’s Living room – indoor/day
Trajano lowers his binoculars and breathes relieved.
The phone rings and he answers to it.

Trajano

Hello!

The voice

Trajano?
The same voice from the evening before (it is heard in off)

Trajano

Yes…

The voice

How are you?

Trajano

Tell me who you are or I will hang up.

(Pause)

Trajano

Hello! Hello!

The voice

Get closer to the window

9
Trajano

Pardon me?!

The voice

Go to the window

Trajano gets closer to the window while listening to the phone.

The voice

I can see you better now

Trajano

Really? Which apartment are you?

(Pause)

The voice

Look with your binoculars

(Trajano, intrigued, puts his binoculars upon his eyes)

Trajano

Can you see me?

The voice
You are not the only one using binoculars around here

Scene 15 – View of the building through Trajano’s perspective – outdoor/indoor;day

The binoculars pass over many apartments of the building ahead. It stops in one of the tenth floor window, the one next to the young lady he has been watching. Then he sees a woman using binoculars close to the window.
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Scene 16 – Trajano’s Living room – indoor/day

Continuing …

Trajano

So, that’s you! (He smiles)

The voice

That’s me!

Trajano

What’s your name?

Scene 17 – View of the woman in binoculars – outdoor/indoor/day
The woman hangs up the phone, takes off the binoculars and goes to the other room, disappearing.

Scene 18 – Trajano’s Living room – indoor/day
Continuing …

Trajano lowers his binoculars and keeps looking outside.

Scene 19 – Trajano’s Living room – indoor/evening

Trajano observes the building ahead through his binoculars.

Scene 20 – The young lady’s apartment through Trajano’s point of view – outdoor/indoor/evening

The young lady is typing her computer which is on the table in the living room. She wears the white shirt. Suddenly she stands up and goes to the window leaning on the window sill and looks outside. She also looks at the tree which almost touches her. The young lady puts her hands among the tree branches.

Scene 21 – Trajano’s Living room – indoor/evening
The phone rings and without lowering the binoculars, Trajano answers to it.
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Trajano

Hello! (he speaks in a rudeness way)

The voice

Hi, Trajano

Trajano

You again…

The voice

Yes, again

Trajano

Why don’t you forget me?

The voice

You are being so unkind to me!

Trajano

Leave me alone!

The voice

Have you got the binoculars with you, darling?

Trajano focuses the binoculars to the apartment beside, in the tenth floor, the one with the woman in binoculars as well.

Scene 22 – View of the woman in binoculars’ apartment from Trajano’s point of view – outdoor/indoor/evening

The woman observes Trajano through her binoculars
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Scene 23 – Trajano’s Living room – indoor/evening

Trajano

Two binoculars do not kiss themselves

The voice

Don’t they? Maybe they match!

Trajano

I’m hanging up

The voice

What a lack of …

Trajano hangs up and focuses again on the young lady’s window.

Scene 24 – The young lady’s apartment through Trajano’s point of view – outdoor/indoor/evening
She is in the living room. She seems to be irritated with something and goes to the bathroom. She stops and looks at the window. She walks to it and leans on the window sill. The leaning becomes deeper and deeper.

Scene 25 – Trajano’s Living room – indoor/evening

Trajano watches the young lady through his binoculars. The phone rings.

Trajano

Hello! (he shouts)

(Pause)

Trajano

Are you staring at me? (he asks a bit calmer, while lowering his binoculars)

(Pause)
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Trajano

You are staring at me! (he states)

(Pause)

Trajano

Do you feel responsible for me?

The voice (the same female voice in off)

Excuse me?

Trajano

Do you feel responsible for me?

The voice

Should I?

Trajano

You have been watching me. I belong to your perception.

(Pause)

Trajano

Am I bothering you?

The voice

No… (almost whispering)

Trajano

I’ve surprised you, haven’t I?
It’s good while there is no involvement.

Trajano moves his binoculars again to the young lady’s apartment next to the woman in binoculars.
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Scene 26 – The woman in binoculars apartment through Trajano’s point of view – outdoor/indoor/evening
The woman observes him through her binoculars while keeping the receiver up.

Scene 27 – Trajano’s Livin room – indoor/evening
Continuing.

Trajano focuses again on the young lady’s apartment. He gets frightened.

Scene 28
– The young lady’s apartment through Trajano’s point of view – outdoor/indoor/evening

The young lady has her arms leaning on the window sill. She raises one leg and puts one foot on the window sill such as she was going to stand up on it.

Scene 29 – Trajano’s Living room – indoor/evening

Trajano

Oh may God! That´’s not possible! Fuck!
Don’t do that to me!

Scene 30 – The woman in binoculars apartment through Trajano’s point of view – outdoor/indoor/evening

The woman in binoculars listens to Trajano’s angry words (in off) – (Here the words can be changed due to the need of tension intended to be shown)

Scene 31 – Trajano’s Living room – indoor/evening
Trajano throws the binoculars and receiver up. He runs fast from his door apartment.

Scene 32 – The woman in binoculars apartment – indoor/evening
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Her face is seen for the first time. She is scared. She has just heard Trajano’s shout and cursing on the phone. Then she releases the binoculars and the receiver.

The woman (to herself)

He got mad, oh my God! What’s he going to do?
He left in a hurry!

She goes to the window and looks down.

Scene 33 – View of the building patio through the woman in binoculars point of view – outdoor/evening

The woman sees Trajano crossing the patio in a hurry and entering the building she lives in.

Scene 34 – The woman in binoculars Living room – indoor/evening
The woman (to herself)

He’s coming to my apartment! Fuck…he got mad!
He’s coming after me!

Scene 35 – The woman in binoculars bedroom – indoor/evening
The woman goes to her bedroom and picks up a gun from a bedside table.

Scene 36 – The woman in binoculars Living room – indoor/evening

The woman stands by the front door. She leans her head on it trying to hear some noisy from the elevator. She is shaking nervously and her eyes are wide-opened.
The woman
Oh my God, I guess I have to leave! I’m going outside… I must surprise him…

Scene 37
– The tenth floor hall – indoor/evening
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The woman carrying a gun leaves her apartment. She aims the gun to the elevator while waites for Trajano. The elevator door opens and Trajano shows up and moves forward to her.
Trajano

Please, we need to help that lady…

The woman

Don’t get closer! Don’t hurt me!

The woman shoots him in the chest and Trajano falls down.

Scene 38 – The young lady’s Living room – indoor/day

The young lady leaves the bathroom and walks to the window. She has a towel around her body and her hair is wet. She has got a happy expression. She leans on the window sill and looks at a bird nest on the tree next to her apartment. She smiles and leans again touching the nest tenderly where there are some bird pets.

The young lady

I’m going to take care of you my darlings!
But now I’m going to work, all right?

The young lady walks far from them and disappears in another room.

Inscriptions
End of Scrip
Lin de Varga

Meditação: um mergulho no sentimento oceânico

A palavra meditação suscita vários significados tais como: “pensar sobre”, “concentração”, “contemplação”, etc. No entanto tais significados são estranhos à sua origem. É muito difícil encontrar a significação precisa da palavra “meditação” pois no Ocidente não possuímos uma cultura que consubstancie essa compreensão.

A palavra meditação vem do sânscrito “Dhyan”, palavra que não tem uma tradução direta no português, mas cujo significado na cultura oriental expressa um estado meditativo de consciência. A cultura oriental se dedicou ao estudo e a experimentação de certos estados de consciência que não são nomeados na cultura ocidental. Várias palavras vindas da cultura oriental não encontram uma tradução adequada no ocidente, como por exemplo: “Samadhi” (“vislumbre” de uma consciência expandida que vem e se estabelece na personalidade) e “Satori” (“vislumbre” que vem e não se estabelece). Já a palavra “Dhyan” quer expressar a meditação como um estado de consciência, um estado completamente diferente, não experimentado no Ocidente, ou ao menos negligenciado ou interpretado de uma outra forma.

Muitas pessoas acreditam que meditar é dominar e praticar determinadas técnicas meditativas, como por exemplo: observar sensações corporais, pensamentos, emoções, respirações, sem se envolver ou julgar, assim como repetir mantras, trabalhar visualizações e imagens, etc. Mas será que a meditação consiste apenas na prática de uma técnica? Ao praticarmos determinada técnica, estaremos meditando ou alcançando um estado de meditação?

Em contrapartida, outras pessoas dizem que a meditação não tem nada a ver com nenhuma repetição de mantra ou com qualquer outra prática. Afirmam que a meditação é pura percepção, pura compreensão não-intelectual. Então naturalmente surge a pergunta: “Você acha que já usufrui dessa pura percepção? Você já possui esta compreensão não-intelectual?”

Bem, se deixarmos um pouco de lado os mistérios da meditação, já podemos ficar gratificados com os efeitos que as técnicas meditativas podem trazer: prazer, auto-estima, amor-próprio, vitalidade, etc. As técnicas de meditação, em várias formas, têm sido adotadas por um número crescente de especialistas como coadjuvante dos tratamentos alopáticos: “Desde a pesquisa inicial do fisiologista Robert K. Wallace e do cardiologista Herbert Benson publicada na revista Scientific American em 1972, têm sido comprovados os efeitos fisiológicos da meditação, entre eles relaxamento muscular profundo, diminuição dos ritmos cardíaco e respiratório, diminuição da pressão arterial, aumento da resistência da pele, (…), aumento da atividade de áreas cerebrais ligadas a emoções prazerosas, aumento de anticorpos. (…) Tinham razão os médicos que, interessados nas tradições do Oriente, passaram a incorporar à sua prática clínica alguns recursos das medicinas indiana e chinesa. A meditação, pelo que as experiências científicas vêm demonstrando, neutraliza o estresse e (… ) facilita os recursos naturais de cura.” (do artigo “Meditação: Novas Comprovações do seu valor”, por Dr. Roberto Azambuja, em http://www.dermatologia.net/neo/base/psiquismo/meditacao.htm).

Mas, por outro lado, não seria sensato negligenciar o fato de que existe muito mais a nossa espera. Simplesmente praticar uma técnica de meditação não significa que você esteja em um estado meditativo ou que irá alcançá-lo em algum momento através desta técnica.

Se este estado meditativo, esse “Dhyan”, é um estado de consciência e este estado é uma condição inata, como podemos praticar um “estado de ser”? Simplesmente não podemos praticar algo da nossa natureza mais íntima, que já existe e que já trouxemos conosco desde que nascemos. Então o que fazer?

É sabido que o bebê experimenta na fase intra-uterina e nos primeiros meses de vida inúmeros períodos do sono REM (“Rapid Eye Movements” / Movimento rápido dos olhos), no qual ocorrem os sonhos mais vívidos. “O sono REM e o ritmo Alfa (transição entre a vigília e o sono) provavelmente constituem a base do que se denomina sentimento oceânico, ou sentimento nirvânico, que é um estado de plena e total experiência prazerosa através de um mergulho instrospectivo que se assemelha ao estado intra-uterino. No adulto o retorno periódico a estes estados permitiria portanto a recomposição desse objeto interno bom, do nascisismo primário (base da auto-estima, do amor próprio) e a regulação das funções fisiológicas vitais.” (do artigo “Fases do Desenvolvimento Libidinal”, pelo psicoterapeuta reichiano Ernani Eduardo Trotta).

À medida que crescemos e atravessamos as múltiplas e singulares fases do crescimento, vamos perdendo a lembrança e o contato com essas experiências nirvânicas. Ao mesmo tempo passamos a focar a nossa atenção nos objetos e nos conectamos mais com o mundo exterior. Trazemos uma certa nostalgia desses estados e procuramos, durante as nossas vidas, resgatá-los de uma forma consciente ou inconsciente.

Apoiado nas minhas próprias experiências, acredito que as técnicas meditativas, as técnicas terapêuticas e as massagens profundas, como a Yoga Massagem Ayurvédica, podem proporcionar verdadeiros “insights” e vislumbres destes estados expansivos da consciência.

No meu modo de ver, não devemos nunca cessar os nossos esforços em direção as técnicas meditativas e terapêuticas, mesmo sabendo que elas não consistem na meditação em si (“Dhyan”), porque de alguma forma estes esforços podem ajudar a preencher as misteriosas lacunas entre o ser e o vir-a-ser.

A meditação é uma espécie de reencontro existencial ainda mais profundo com os estados expansivos da consciência, só que agora, não mais como um bebê, inconsciente da sua bem-aventurança, mas como seres humanos adultos, maduros e conscientes.

E não precisamos ir muito longe para obter este reencontro… O bebê dentro de nós experimentou, sabe e conhece algo da “experiência Dhyan”. E este bebê, de algum modo anseia, por esse reencontro com a verdadeira meditação: um mergulho no sentimento oceânico, um retorno ao paraíso perdido, mas agora de uma forma consciente.

OJAS, Swami Dhyan

Terapeuta de Yoga Massagem Ayurvédica, instrutor de Meditação, psicoterapeuta em Bioenergética

Coordenador do ESPAÇO VIGOR ( corpo-terapia-meditação ).

A falha do pensamento

Gosto da idéia de Alan Watts quando ele fala na “harpa do meu cérebro”: tipo “Estas pesquisas meticulosas da antropologia cultural têm suas virtudes, mas estou bem mais interessado em como estes antigos escritos soam na harpa do meu cérebro, naturalmente afinado segundo as escalas da cultura ocidental”.(1)Aliás, gosto da maioria das idéias de Alan, através dos livros dele os quais tive oportunidade de ler. Impressiona-me sua morte prematura, mas é um sentimento que, no entanto, não sei se ,estranhamente, deixa de ter qualquer característica de perda. Talvez o respeite demais para isso. Realmente, poucos pensadores tocaram-me tão fundo.

Quando cheguei ao “TAO O curso do rio”, a questão da palavra iniciou sua avassaladora pressão sobre minha mente. Seria mais preciso dizer dentro dela, como se meus neurônios e suas sinapses mostrassem de forma contundente que a palavra não tem representação que valha um suspiro da brisa ou a queda suave de um galho de árvore. Não vale sua referência ao sol, quando lhe dá este nome. Apesar disso, ou seja, da pressão referida, porque outro termo não haveria, senti-me, ato contínuo, liberto. Uma liberdade que jamais supus pudesse experimentar. Algo que não nos faz melhor nem pior, já que qualquer nível de subjetividade há que ser descartado.

O que pode ser analisado disto:”O pensamento nasce do fracasso. Quando a ação é satisfatória, não há resíduo que chame a atenção: pensar é confessar a falta de ajuste, e temos de parar para considerá-lo. Somente quando o organismo humano não consegue obter uma resposta adequada ä sua situação existe material para os processos do pensamento, e quanto maior o fracasso, mais minucioso tornam-se estes…” (2)O que pode ser dito? É curioso perguntá-lo, impossível dizê-lo. Através da percepção subjacente, sente-se, assim como se sente a luz dos primeiros raios de sol que penetram em um bosque e fazem parte inexorável dele. O silêncio é a melhor perspectiva.

Assim como não se tem um outro lugar para se estar, ou seja, neste Universo, não há também como não se viver sem a própria psique. No entanto, trata-se de não se ser escravo desta,perceber que ela é pura ficção e que se é filho daquele.

Dentre o que se pode tentar para chegar-se a tal situação, está a piedade pelo outro, que se encontra preso a seus ressentimentos. Não esperar dele um amor que não pode dar e compreender que não é fácil ser despejado neste canto de mundo, apesar do sublime mergulho. Ter também uma suprema piedade pela flor que desabrocha, uma piedade compreensiva e alegre por saber que ela, flor, está a cumprir sua potencialidade. Como o trevo de quatro folhas, pura mágica, que se fecha em si mesmo, à noite,para dormir, e desperta com toda sinceridade ao amanhecer.

Isto parece aproximar-se bastante daquilo que traduz a idéia de um ser humano. A aceitação que precisa inundá-lo. Sem ela, aceitação, talvez não possam ser levantadas pistas, encontradas trilhas, descobertos caminhos. Um resquício sequer de vaidade, empana qualquer tentativa de caminhar o caminho.

(1)Watts, Alan, “TAO, O curso do rio”, com a colaboração de Al Chung-Liang Huang, pg.17, Editora Pensamento,1999, São Paulo

(2)Whyte, Lancelot Law, The Next Development in Man, Cresset Press, Londres, 1944, Henry Holt, Nova York, l948, citado em”TAO, O curso do rio” (1)

Este texto aí, achei-o em um velho computador, nas entranhas dele, guardado como se fora uma pérola. Não me refiro, evidentemente, à minha parte e nem mesmo àquela de Watts, autor que admiro profundamente, mas ao pensamento de Lancelot:”O pensamento nasce do fracasso. Quando a ação é satisfatória, não há resíduo que chame a atenção…”E vai adiante. No entanto, afinal de contas, Lancelot está pensando que o ”pensamento nasce do fracasso…”E que culpa existe em esquecer-se um pensamento, se o pensamento nasce do fracasso.

“Mas eu queria mostrar, simplesmente, a idéia de Lancelot às pessoas

Oração da mãe

A oração que você vai ler, deu origem ao “Pai Nosso” que conhecemos. O que importa, ao mostrá-la agora, é que mãe é respiração da vida e nos faz sentir “A alma da terra dentro de nós”. É preciso ter em mente, além de qualquer presente que você dê a ela, que mãe é o instrumento do universo que deu a todos nós o privilégio de viver o mistério da vida.

Sua mãe lhe deu o maior presente de todos.

Imprima em qualquer tempo e dê a ela esta oração.

Lin de Varga

Pai Nosso

Pai-Mãe, respiração da vida,
Fonte do som, Ação sem palavras, Criador do Cosmos!
Faça sua Luz brilhar dentro de nós,
Entre nós e fora de nós
Para que possamos torná-la útil.

Ajude-nos a seguir nosso caminho,
Respirando apenas o sentimento que emana do senhor.
Nosso EU, no mesmo passo, possa estar com o Seu,
Para que caminhemos como Reis e Rainhas
Com todas as outras criaturas.

Que o Seu e o nosso desejo seja um só,
Em toda a luz, assim como em todas as formas,
Em toda existência individual,
Assim como em todas as comunidades.

Faça-nos sentir a alma da terra dentro de nós,
Pois, assim, sentiremos a sabedoria que existe em tudo.

Não permita que a superficialidade
E a aparência das coisas do mundo nos iluda,
E nos liberte de tudo aquilo que
Impede nosso crescimento.

Não nos deixe ser tomados pelo esquecimento
De que o Senhor é o poder e a Glória do mundo,
A canção que se renova de tempos em tempos
E que a tudo embeleza.

Possa o Seu Amor ser o solo onde crescem nossas ações.
Que assim seja!!!

A oração acima, originalmente em aramaico, encontrada escrita em uma pedra branca no Monte das oliveiras, em Jerusalém, que deu origem ao Pai Nosso que nós conhecemos atualmente. O aramaico era o idioma com o qual Jesus se dirigia ao povo. A tradução direta do aramaico para o português nos mostra uma bela e profunda oração.

A anorexia desvelada

A anorexia é o não ser. Cola-se no exterior. Pode-se observar o alcoolismo, a depressão, a drogadicção de todo tipo e, no entanto, nada parece tão absolutamente radical como a identidade que é criada pelo anoréxico com sua condição. A questão do não comer, de pensar-se um obeso que não existe ( ou existe?), de ser no outro de forma tão irremediável.

Há aí uma grande distorção da auto-imagem e é difícil conceber que a mente humana não consiga fazer um acordo com essa forma de se ver a si mesmo.

Então, surge um momento em que parece não haver retorno, por assim dizer. Como aquele “arranhar” na garganta quando o alimento passa e a conseqüente vontade de vômito. Mesmo com tratamento criterioso, sabe-se da luta que se tem a lutar. O alcoólico pode viver uma vida inteira sem tocar no álcool; o deprimido (com medicação ou não) conviver com a depressão. Pode o anoréxico deixar de comer? Pode ele comer? Este o paradoxo, a diferença que é colocada no mesmo pacote.

Penso que aquilo que fica é uma lembrança. Algo que se assimila em dado momento e se torna possibilidade. Aonde aconteceu? Quem sabe no útero, ou antes dele, quem sabe na infância em um momento no qual recebeu-se a influência do outro, desde o olhar até à palavra dilacerante. O que seria a combinação de genes sem a questão a ser absorvida e tornada trauma, ou de que química cerebral se fala se a ampola de experimentação estiver quebrada?

Anorexia, então, é não ser, sendo no outro..”Eles me querem magra!” e, num passe de mágica, o corpo esquelético enche-se de contornos e carnes no reflexo do espelho.

Só um caminho: Olhar entre uma idéia e outra, um pensamento e outro, o espaço da criatividade. Só o silêncio vai levar um anoréxico ao equilíbrio, só desta perspectiva pode-se, afinal, conceber que a armadilha foi posta e precisa ser desarmada.

No silêncio, a palavra dita, “Você está gorda!”, “Você precisa emagrecer, para desfilar!”, “Você precisa ser magra para trabalhar e sustentar a família!…”, pode ser percebida em sua ilusória dimensão. Palavras que vêm do outro, da sociedade e que se colam no interior da pessoa que, via de conseqüência, cola-se no outro. É preciso ser uma testemunha de si mesmo e, deste distanciamento, agir. Dir-se-á que, sendo tão simples, assim, onde o problema?

O Terapeuta chega para este papel, abrir o caminho para a atenção simples que se precisa ter com a finalidade de observar-se a si mesmo, para uma ressignificação da vida, uma nova leitura de si mesmo.

Lê-se, textualmente, em varias matérias, em jornais e Internet, que a causa da doença é desconhecida, com hipóteses de distúrbio psicológico, cujas origens estariam em alterações neuroquímicas do cérebro. Ao mesmo tempo, fala-se de tratamento por equipe multidisciplinar (com psiquiatra, psicólogo, clínico, nutricionista, e por aí vai.)A doença, portanto, desconcerta, distorce, na acepção absoluta da palavra.

O objetivo mais importante, seria a retomada do peso corporal. Como mantê-lo, sem a modificação do olhar do paciente? “Quando você observa a sua dor em profundidade, uma inocência brota em você e então você se conscientiza de que não é o corpo.”(1)A citação é providencial.Ao anoréxico é preciso dar o espaço de reconhecimento, o vazio necessário à ação terapêutica, para que ele tenha consciência de que sua visão do próprio corpo está distorcida.

Ninguém em sã consciência, atento, inala a fumaça de um cigarro, profundamente, até o fundo dos pulmões. É preciso oferecer ao anoréxico, um distanciamento, para que ele, olhando, perceba os limites reais de seu corpo. Sua atenção terá a energia necessária para dar harmonia à sua percepção. Aí,quem sabe, um sentimento de liberdade surja nele e lhe permita perceber que os modelos e valores forçados pela sociedade devem permanecer em sua real dimensão:A da representação.

Por Lin de Varga

(1) Citado em “Da dor ao êxtase”, por Paramahamsa Sri Nithyananda, Jornal “PRANA”, outubro de 2006, Rio de Janeiro.