A falha do pensamento

Gosto da idéia de Alan Watts quando ele fala na “harpa do meu cérebro”: tipo “Estas pesquisas meticulosas da antropologia cultural têm suas virtudes, mas estou bem mais interessado em como estes antigos escritos soam na harpa do meu cérebro, naturalmente afinado segundo as escalas da cultura ocidental”.(1)Aliás, gosto da maioria das idéias de Alan, através dos livros dele os quais tive oportunidade de ler. Impressiona-me sua morte prematura, mas é um sentimento que, no entanto, não sei se ,estranhamente, deixa de ter qualquer característica de perda. Talvez o respeite demais para isso. Realmente, poucos pensadores tocaram-me tão fundo.

Quando cheguei ao “TAO O curso do rio”, a questão da palavra iniciou sua avassaladora pressão sobre minha mente. Seria mais preciso dizer dentro dela, como se meus neurônios e suas sinapses mostrassem de forma contundente que a palavra não tem representação que valha um suspiro da brisa ou a queda suave de um galho de árvore. Não vale sua referência ao sol, quando lhe dá este nome. Apesar disso, ou seja, da pressão referida, porque outro termo não haveria, senti-me, ato contínuo, liberto. Uma liberdade que jamais supus pudesse experimentar. Algo que não nos faz melhor nem pior, já que qualquer nível de subjetividade há que ser descartado.

O que pode ser analisado disto:”O pensamento nasce do fracasso. Quando a ação é satisfatória, não há resíduo que chame a atenção: pensar é confessar a falta de ajuste, e temos de parar para considerá-lo. Somente quando o organismo humano não consegue obter uma resposta adequada ä sua situação existe material para os processos do pensamento, e quanto maior o fracasso, mais minucioso tornam-se estes…” (2)O que pode ser dito? É curioso perguntá-lo, impossível dizê-lo. Através da percepção subjacente, sente-se, assim como se sente a luz dos primeiros raios de sol que penetram em um bosque e fazem parte inexorável dele. O silêncio é a melhor perspectiva.

Assim como não se tem um outro lugar para se estar, ou seja, neste Universo, não há também como não se viver sem a própria psique. No entanto, trata-se de não se ser escravo desta,perceber que ela é pura ficção e que se é filho daquele.

Dentre o que se pode tentar para chegar-se a tal situação, está a piedade pelo outro, que se encontra preso a seus ressentimentos. Não esperar dele um amor que não pode dar e compreender que não é fácil ser despejado neste canto de mundo, apesar do sublime mergulho. Ter também uma suprema piedade pela flor que desabrocha, uma piedade compreensiva e alegre por saber que ela, flor, está a cumprir sua potencialidade. Como o trevo de quatro folhas, pura mágica, que se fecha em si mesmo, à noite,para dormir, e desperta com toda sinceridade ao amanhecer.

Isto parece aproximar-se bastante daquilo que traduz a idéia de um ser humano. A aceitação que precisa inundá-lo. Sem ela, aceitação, talvez não possam ser levantadas pistas, encontradas trilhas, descobertos caminhos. Um resquício sequer de vaidade, empana qualquer tentativa de caminhar o caminho.

(1)Watts, Alan, “TAO, O curso do rio”, com a colaboração de Al Chung-Liang Huang, pg.17, Editora Pensamento,1999, São Paulo

(2)Whyte, Lancelot Law, The Next Development in Man, Cresset Press, Londres, 1944, Henry Holt, Nova York, l948, citado em”TAO, O curso do rio” (1)

Este texto aí, achei-o em um velho computador, nas entranhas dele, guardado como se fora uma pérola. Não me refiro, evidentemente, à minha parte e nem mesmo àquela de Watts, autor que admiro profundamente, mas ao pensamento de Lancelot:”O pensamento nasce do fracasso. Quando a ação é satisfatória, não há resíduo que chame a atenção…”E vai adiante. No entanto, afinal de contas, Lancelot está pensando que o ”pensamento nasce do fracasso…”E que culpa existe em esquecer-se um pensamento, se o pensamento nasce do fracasso.

“Mas eu queria mostrar, simplesmente, a idéia de Lancelot às pessoas

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